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8M: Conheça cinco manas capixabas que representam em suas funções

B-Girl Magrela, DJ Deb, a skatista Aline Dantas, a grafiteira Keka e a rapper Fênix falam sobre as barreiras vencidas para trabalharem em funções dominadas por homens


Por Lorraina Moraes


Na sequência B-Girl Magrela, DJ Deb, skatista Aline Dantas, grafiteira Keka e rapper Fênix

Antes de falar sobre nossas guerreiras, deixe-me trazer um panorama sobre o 8 de março (8M) e o Mês da Mulher. No Dia Internacional da Mulher (8M) costumamos ganhar presentes, mimos e homenagens, e merecemos, sim, tudo isso, todos os dias!


Mas quero ressaltar aqui que o dia 8M é muito mais do que uma data comemorativa ou comercial. É sinônimo de luta e resistência! E o que poucos sabem, é que as lutas que deram origem ao dia 8 de Março – oficializado em 1975 com o Dia Internacional da Mulher pela Organização das Nações Unidas (ONU) – não acontecerem neste dia específico.


Vamos lá:


Protesto por melhores condições de trabalho

No dia 26 de fevereiro de 1909, cerca de 15 mil mulheres marcharam nas ruas da cidade de Nova York por melhores condições de trabalho - na época, as jornadas para elas poderiam chegar a 16 h por dia, seis dias por semana e, não raro, incluíam também os domingos. Ali teria sido celebrado pela primeira vez o "Dia Nacional da Mulher" americano¹.


Na Rússia, o Dia Internacional da Mulher é marcado por uma manifestação organizada por tecelãs e costureiras da cidade de Petrogrado, durante a greve iniciada no dia 23 de fevereiro de 1917, por “Pão e Paz”, nome pelo qual ficou conhecido o movimento. “As mulheres – algumas eram trabalhadoras, algumas eram esposas de soldados – reivindicavam ‘Pão para nossos filhos’ e ‘Retorno de nossos maridos das trincheiras’”, descreve a militante Alexandra Kollontai, em 1920².


No fim do século XIX e início do século XX, os protestos já ecoavam nas ruas da Europa e países de outros continentes. Nas fábricas da época, a maioria era mulher, judia e jovem; o serviço era exaustivo, desumano. Elas trabalhavam horas, em condições insalubres. Portanto, reivindicavam em seus protestos: salários dignos, direito ao voto e igualdade de gênero.


Incêndio em fábrica que matou 125 mulheres

Infelizmente, chegamos ao ponto mais crítico, terrível e revoltante dessa história: Em 25 de Março de 1911, a fábrica Triangle Shirtwaist Company, pegou fogo com várias mulheres no interior do edifício. O episódio resultou na morte de 125 mulheres judias (além de 21 homens), imigrantes, na sua maioria entre 13 e 23 anos. As causas desse incêndio foram as péssimas instalações elétricas associadas à composição do solo e das repartições da fábrica e, também, à grande quantidade de tecido presente no recinto, o que serviu de combustível para o fogo. Além disso, alguns proprietários de fábricas da época, incluindo o da Triangle, trancavam seus funcionários na fábrica durante o expediente como forma de conter motins e greves. No momento em que a fábrica pegou fogo, as portas estavam trancadas³.


Essa tragédia fez com que crescesse ainda mais a necessidade de melhores condições de trabalho e igualdade de gênero.


Com essa introdução, gostaria de trazer uma reflexão: Nos dias de hoje, em pleno século XXI, o que mudou em relação à desigualdade de gênero?


Reuni os depoimentos de algumas manas, nos quais elas contam um pouco de suas trajetórias em espaços ocupados majoritariamente por homens. Elas falam dos desafios e do quanto lutaram e ainda lutam por igualdade.


CONFIRA:


Magrela dança break desde 2009

Nome artístico: Magrela (Andriely) Idade: 28 anos Função: B-Girl, Educadora Social, Coordenadora do Conexão Flow (Grupo de Danças Urbanas).


“Iniciei na dança em 2009, através de um projeto de dança no CRJ (Centro de Referência da Juventude). Desde lá não parei mais, pois sou apaixonada pelo que faço. Quando comecei tive apoios essenciais, como líderes de grupos da época e amigos. O difícil foi driblar o machismo, até porque o Breaking era composto em sua maioria por homens. Me recordo que na minha primeira aula ouvi do próprio professor que eu não passaria de uma semana. Hoje, provo ao contrário, sei da importância da mulher em TODOS os espaços onde se faz presente. Sempre busquei por igualdade, já fui a competições femininas, mas boto a cara também nas masculinas. Aliás, a dança é a mesma! Não deveria haver barreiras! Na dança me sinto fortalecida, foi onde me encontrei, busco sempre conhecimento e incentivar outras meninas. ” Magrela, B-Girl

Atualmente Magrela coordena um grupo de dança composto somente por mulheres, no qual rolam treinos e sempre um bate papo que frisa, dentre outros assuntos, a importância da união feminina.



Deb foi a primeira mulher DJ do Hip-Hop no ES

Nome artístico: Deb (Débora) Idade: 44 anos Função: DJ, atriz, performer, militante feminista, circense, diretora da Nação Mulher e produtora cultural.


“Esse ano completo 45 anos de existência e 30 de carreira. Não me lembro de fazer outra coisa na vida que não seja arte. Como DJ, despertei o interesse em 2006, mas foi apenas em 2014 que comecei a tocar em festas. Foi quando entrei para o Coletivo Femenina, tocando virtual DJ. Sempre procurei me aperfeiçoar, estudando mixagem, montagem em técnicas de som, entre outros. Nesse período comecei a me envolver com o Movimento Hip Hop. Mesmo sendo a primeira DJ mulher do Hip Hop Capixaba, enfrentei a barreira do machismo, até porque os caras estavam anos luz na nossa frente e têm reconhecimento e favoritismo. Acabei realizando meu sonho tardiamente, mas sigo na estrada. Pra mim é uma arma de militância por mim e pelas minhas irmãs” Deb, DJ

Deb deixa um recado para as manas que querem iniciar: “Busque programas gratuitos, busque conhecimento e procure parcerias com outras mulheres, pois o mais importante é não seguir sozinha. Juntas é bem melhor a gente se fortalece”.




Keka começou a grafitar em 2009

Nome: Keka (Jéssyca Florêncio) Função: Grafiteira, artista plástica, integrante da FG Crew


“Iniciei em 2009, mas quase não saia pra pintar por questões familiares e financeiras. Sofri preconceito principalmente dentro de casa. Foram longas discussões até eles compreenderem minha caminhada. Sobre ser grafiteira em meio aos caras, houve algumas situações onde me senti ignorada, mesmo fazendo parte de um painel, em uma produção de rua, junto com outros grafiteiros. Você percebe nitidamente quando te ignoram. Houve um caso em que eu realizei meu trabalho em um espaço com meu coletivo e um grupo de homens parou para observar o resultado final. Ao perguntarem quais eram os artistas envolvidos e o trabalho de cada um, perguntaram sobre minha pintura. Me apontaram do outro lado da rua, como sendo a autora; mas eles duvidaram na hora. E disseram: “Ahh não acredito que foi ela!”, dando a entender que tecnicamente não poderia ter sido executado por uma mulher. Com o passar do tempo tive incentivo da própria galera do grafite. Na época quase não havia meninas envolvidas, mas hoje, o número de meninas é bem maior. Fico feliz com isso” Keka, grafiteira

Keka nos confidenciou outros desafios vivenciados por ela: “Sofro por não estar dentro dos padrões da sociedade. Sou de baixa estatura, tenho 1,45m e hoje consigo falar disso numa boa (risos). Ela conclui: “Todo mundo tem capacidade de fazer qualquer coisa quando se propõe a fazer com dedicação, amor e responsabilidade”.



Aline é campeã brasileira master

Nome: Aline Dantas Função: skatista (Campeã Brasileira Master), Educadora Social, Estudante de Educação Física.


“Comecei a andar de Skate em 1998, por estímulo do meu irmão e sempre convivi desde nova no meio da galera do skate; porém era a única menina. Enfrentei muito pré-conceito. Já teve campeonato que tive que competir com homens, pois não havia categoria feminina. Com o passar do tempo, o skate entre as mulheres ganhou força a nível mundial. Já avançamos muito, mas ainda há muito chão pela frente. Conquistamos nossa categoria dentro dos campeonatos. Mas ainda tem estados que não incluem a categoria feminina devido à quantidade de meninas nos campeonatos. Nossa luta hoje é reconhecimento igualitário” Aline Dantas, skatista

Sobre os comentários:

“Já fui chamada de ‘moleque macho’, por estar em um meio onde boa parte é homem, fora outras piadas e associações, como ‘quem anda de skate fuma maconha’, entres outras coisas”.



Fênix coordena o Projeto Rei das Ruas

Bem, não poderia fechar essa matéria sem falar um pouco da minha experiência, como mulher e rapper.

Me inseri no rap em 2009. Pois bem, o que muitos não sabiam é que já cantava e escrevia desde meus oito anos de idade, no anonimato do meu quarto ou debaixo do chuveiro. As escritas ganharam forma e rolou a junção das poesias com o rap, o que tem tudo a ver.


Na época, cheguei a escutar rumores de que nem era eu quem escrevia minhas letras. Vê se pode?! Porque será? Pelo fato de ser mulher! Os caras sempre ficavam de canto, só observando. Elogios (risos), era quase impossível escutar. Mas conquistei muitos corações com meu som e, o mais impactante, com minha história de vida. “Fato Verídico” foi o meu primeiro som, no qual conto porque estou aqui... e pra quê eu vim!


Hoje o número de manas na cena é maior, mais a visibilidade ainda é muito pequena. Hoje estou inserida em um coletivo onde a maioria é homem. Já fui questionada sobre isso até mesmo por mulheres, quem dirá homens. Mas hoje, no contexto desse coletivo, sou super bem vinda e me sinto abraçada. Faço parte do coletivo Holy Raps e sou coordenadora feminina do Projeto Rei das Ruas.


Deixo aqui meu agradecimento e gratidão a cada mina aqui, pois vocês são a voz de muitas outras guerreiras.


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¹Fonte: Terra

²Fonte: Brasil de Fato

³Fonte: Brasil Escola