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EJ: A liberdade cantou

Edson de Matos foi um dos autores da música “A liberdade vai cantar”, composta e gravada durante sua passagem pelo Projeto Rei das Ruas


Por Gustavo Gouvêa


Edson era um dos adolescentes mais participativos do Projeto Rei das Ruas

“Guga, pode ficar tranquilo, que eu vou fazer rap com você, mas vou fazer rap com você na rua! Eu tô na pista, ganhei meu alvará!”. Essa era a notícia que eu recebia no dia 9 de maio de 2019, através de um áudio que o Edson me enviava a partir do celular de sua mãe. Três meses depois, no dia 12 de agosto, dias após estar desaparecido, recebíamos de sua irmã a notícia: “infelizmente, luto”. O adolescente Edson de Matos, de 16 anos, morador do bairro Santana, em Cariacica, foi assassinado em consequência da violência oriunda do tráfico de drogas, que traga pessoas cada vez mais jovens para o mundo do crime, fazendo-os tanto protagonistas, quanto as principais vítimas dessa carnificina.


Este fato é lamentável e trouxe muita tristeza a todos que o amavam. Entretanto, estamos aqui para lembrar do rapaz querido, com brilho nos olhos e que plantou alegria e saudades em nossos corações.


Durante sua passagem pelo Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases), tivemos o privilégio de conhecer este jovem, que tanto chamou a atenção dos integrantes do Projeto Rei das Ruas, durante as oficinas de rap realizadas no primeiro semestre de 2019. Ele entrou na terceira aula daquela turma (foram 10 no total), demonstrando um entusiasmo diferente.


Diante da pregação da Palavra de Deus, creu e recebeu a Jesus Cristo como Senhor e Salvador, confessando-O junto a outros adolescentes. Sempre atento às pregações, tirava dúvidas de como podia aplicar a fé em sua vida. Lembro-me de uma dúvida específica: “O que eu devo fazer quando a pessoa me ofende, me desmerece? Jesus diz que eu devo dar a outra face, mas como eu faço isso?”. Suas dúvidas eram sinceras e serviam para trazer bons aconselhamentos a todos os presentes. Recitou provérbios, e estava constantemente disposto a compartilhar de como havia desenvolvido sua fé nos últimos quinze dias (os encontros eram quinzenais).


Lembro-me de um dia específico, quando chegamos para realizar a primeira intervenção com o skate, a partir de nossa parceira Aline Dantas. Neste dia, ele estava bem magoado com uma situação específica que tinha acontecido, algo relacionado a correspondências trocadas com uma garota da qual gostava. Coisa típica da paixonite adolescente. Naquela hora, o calor de mãe, da nossa irmã Fátima Ferreira, a “Tia Fatinha”, fez toda a diferença. Ela o abraçou naquele momento, proferindo palavras brandas que trouxeram paz e o acalmaram. Edson sempre perguntava pela “Tia Fatinha” quando ela não ia (já que estava atuando junto às adolescentes da UFI).


A liberdade vai cantar: o RAP


Seus diferenciais eram o foco, absorção e aplicabilidade das ideias e facilidade de expressão

Edson era conhecido como “EJ”. No início das oficinas de rap, talvez pelo fato de ter entrado enquanto as aulas já estavam acontecendo, ele ficou um pouco tímido para escrever e para soltar sua voz. Suas primeiras linhas compostas nas oficinas foram:


“Mundo diferente, meio mudado,

Alguns sem Deus, outros com Deus do lado,

Vontade de me expressar no meio da multidão,

Mas quando calam minha voz, eu me sinto sem chão,

Mas nessa hora, Deus entra em ação,

Mexendo no meu psicológico e no meu coração...” (EJ)


EJ tinha alguns diferenciais. Era focado nas explicações e conseguia aplicar o que era ensinado com uma boa fidelidade. Tinha facilidade para expressar suas ideias, fosse no papel ou, posteriormente, na rima improvisada (o “freestyle”). Além disso, seu português apresentava pouquíssimos erros.


Todos tinham uma certeza: Edson podia até não virar um “rapper”, mas certamente tinha potencial para correr atrás de sonhos legítimos, dado à sua entrega, foco, aplicação, criatividade e determinação. E, de fato, o intuito das oficinas de rap do Rei das Ruas é esta: trabalhar os valores Eternos e fazer os adolescentes crerem que são capazes de transformar suas vidas, construindo uma trajetória positiva, seja no Rap ou em outro meio.


Mas ele era, sim, um potencial talento para o rap, um diamante a ser lapidado. Junto a outros três adolescentes (H.S, A.R e E.R – eles não podem ser identificados) compôs “A liberdade vai cantar”, um rap reflexivo que fala sobre o cotidiano na Unidade, sobre a vida antes da internação, sobre o anseio por mudanças, por ser melhor na sociedade, pela regeneração, e por uma caminhada guiada pela luz divina “quando a liberdade cantar”.


“Eu vejo os irmãos no crime se matando,

Eu vejo os irmãos, nas drogas se afundando,

Eu vejo o mal por todo o lado,

Será que é o fim do mundo? Pra mim tá embaçado,

Os irmãos que se foram, ficaram na memória,

Mas ainda estou de pé, isso pra mim é uma vitória,

Quero me esquecer dos momentos tristes,

Quero acreditar que a paz ainda existe,

Porque através do rap eu quero te falar:

Daqui um tempo a liberdade vai cantar” (EJ)



No dia da gravação da música, dia 24 de abril, somente EJ e H.S. puderam comparecer para interpretá-la. Ambos desenvolveram muito bem seus talentos durante as oficinas e interpretaram a composição de maneira impressionante, mostrando presença e segurança nas gravações. Depois de finalizada a gravação, EJ ainda pediu para abrir o microfone para registrar um “freestyle” em cima de uma base. Esse momento de improvisação foi o último em que estive com o Edson pessoalmente. E foi o momento áureo de toda aquela oficina, pois o que foi construído ali artisticamente, e de forma improvisada, deu origem às “linhas” mais fortes de toda aquela primeira turma da oficina (o resultado disso virá em uma homenagem futura). Perguntei se eles já tinha um “vulgo”, o nome artístico. Edson disse que tinha afinidade pelo nome “Lázaro”, o amigo que Jesus amava e que foi ressuscitado pelo Salvador.


Ficou bem claro para mim que o nosso “Lázaro” tinha tudo para ter um grande futuro, a partir do seu coração regenerado e seu talento peculiar, independente da área que escolhesse.


Ele ainda pediu orações pela sua vida, já que na semana seguinte, ele teria audiência com a juíza e poderia ter sua liberdade decretada. E foi o que aconteceu. No dia 9 de maio eu recebia o áudio descrito no início do texto. Toda a equipe ficou muito feliz com a notícia e logo fomos fazer uma visita a ele e sua família, à qual ficamos muito alegres em conhecer e em compartilhar deste momento de esperança de uma nova vida, de transformação, de um novo início.


O Edson escolheu mudar, se entregar, renascer como uma nova criatura. Mas escolher mudar não quer dizer que será fácil, muito menos que não haverá recaídas. Mudança é sinônimo de muitas provas e batalhas para manter-se firme e crescer no objetivo. Em se tratando de adolescentes, a situação é um pouco mais complicada, dado às peculiaridades dessa fase da vida. Matéria que realizei junto à pesquisadora Pollyana Labeta Iack, em setembro de 2017 retrata a infeliz exceção à regra que é a mudança de vida genuína do egresso do sistema socioeducativo capixaba: 63% reincidem no crime e retornam ao sistema socioeducativo ou progridem para o sistema prisional adulto (devido à idade). Outros 14% morrem, a maioria executados de maneira trágica (encorajo todos a lerem esta matéria e a refletirem sobre essa triste realidade).


Fatores como voltar para a mesma comunidade/vizinhança à qual foram aliciados pelo crime; a falta de oportunidades de trabalho (sobretudo para adolescentes, o que legalmente seria o “Menor Aprendiz”) quando ganham a liberdade; a falta de proteção e acompanhamento/assistência do Estado após a saída (muitos foram executados por já estarem marcados, mesmo estando estudando/trabalhando, o que mostra o desejo de mudança), todos esses são desafios enormes para que a nova trajetória perdure.


Infelizmente o Edson, EJ, nosso “Lázaro”, não está mais aqui conosco. Mas temos a convicção de que se tornou um “filho de Deus”, já que “creu no nome de Jesus e o recebeu” em sua vida (João 1:12). Cremos que ele descansa nos braços do Pai, única coisa que nos traz paz diante das circunstâncias.


Sua morte jamais será em vão e ao invés de amedrontar aqueles que lutam por essas vidas, deve trazer forças para que prossigamos no caminho, pregando o Evangelho da Salvação Eterna e servindo estes adolescentes com as ferramentas que Deus der. Edson vive em nossas memórias e em nosso coração, e será sempre combustível para que não esqueçamos dos propósitos eternos.


Ainda há muito a ser feito até que a tão sonhada transformação ocorra nas periferias, na vida de cada adolescente e jovem, dentro do sistema socioeducativo e após a “liberdade cantar” para aqueles que cumprirem medida. Em todas estas situações, a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos, muito poucos. Oramos para que o Senhor envie mais servos.


Lázaro pode ter morrido, mas Jesus o ressuscitou, pois é Soberano sobre todas as coisas, inclusive sobre a própria morte. Sabemos que nem mesmo essa morte pôde separar EJ do amor de Deus, que está em Cristo Jesus. Nossa certeza e nosso conforto é e sempre será a Palavra de Deus, que é inerrante e infalível: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36).


Portanto, esteja em paz, EJ... Sua liberdade cantou!



CONFIRA A MÚSICA: "A LIBERDADE VAI CANTAR", DE AUTORIA DE EJ E HS (produzida nas Oficinas de Rap do projeto Rei das Ruas):



*Matéria publicada mediante autorização da família do Edson.